Enquadramento da Avaliação do Desempenho (AD): O conceito de Trabalho

13 março 2014, quinta-feira . Avaliação do Desempenho

O homem tem necessidade de estar em actividade

A mera ocupação de tempo livre não é capaz de satisfazer a sua natureza. Assim, vê-se compelido a exercer uma actividade dita produtiva…a trabalhar. Ora, segundo Moura (1986: 11), “trabalho é toda a actividade que produz objectos ou serviços que têm um valor de uso”. Esta definição, de cariz económico, pode e deve ser complementada por uma outra, com uma vertente mais assumidamente psicossocial, segundo a qual o trabalho consiste num esforço orientado para um objectivo e na actividade integrada em função desse objectivo (Lévy-Leboyer & Sperandio, 1987). No mesmo sentido vai a definição de Goguelin (1987, in Lima Santos, 1991: 1), segundo a qual o trabalho é um “conjunto de actividades humanas organizadas […] com vista à produção ou contribuição para produzir um resultado útil”.

Ócio, negócio e trabalho

No Império Romano a actividade primeira era o ócio (otium), contrapondo-se-lhe o negotium (não-ócio), como negativo de uma condição superior (herdada por laços de sangue ou casamento) que permitia a uns viverem do trabalho dos outros. O salário era o preço de uma servidão. Não existia a necessidade social de inventar novas formas de tornar o trabalho mais fácil. A actividade laboral não era valorizada, uma vez que ainda não era vista como forma de alterar o status adquirido pelo nascimento (Méda, 1999).

É na Idade Média, com a reinterpretação dos textos bíblicos, que o trabalho passa a ser visto como meio de aproximação a Deus, expiação e, simultaneamente, redenção.

Trabalho como castigo

Com o século XVI chega um novo termo para designar o trabalho - tripalium (instrumento de tortura): o trabalho perde o seu carácter de algo divino, criador, e passa a conotar-se com algo de humilhante, uma vez que, no quadro da moral judaico-cristã, o lucro é nocivo, obra do Demo. O trabalho deve servir apenas a comunidade e nunca interesses pessoais. “O trabalho […] tem um valor social” (Lefranc, 1988: 9). É o trabalho como dever.

Trabalho e criação de valor

Adam Smith, em 1776, ao publicar o “Inquérito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, faz vingar a ideia de que o trabalho é a actividade de criação de valor por excelência: é o factor que, pelo tempo e perícia, habilidade ou capacidade, permite atribuir uma valoração comparável e quantitativa à transformação das matérias-primas em objectos, bens ou serviços com utilidade prática e/ou afectiva, mensurável como vector de troca. Troca essa que se insinua no próprio trabalho do indivíduo. O trabalho (enquanto resultado ou disponibilidade) é, por si só, propriedade do indivíduo e constitui-se como moeda de troca para que este consiga satisfazer as suas necessidades.

Trabalho enquanto fonte de realização e conhecimento

No século XIX surge o conceito de trabalho como meio de realização, superando esta concepção de que o trabalho se resume a um mero meio de subsistência. Paradoxalmente, surge o conceito de direito ao trabalho (que o estado-providência deveria assegurar) e o de contrato de trabalho, que acaba por pautar a relação laboral como relação contratual, alvo de formulação jurídica, com todas as implicações daí decorrentes.

Com as transformações sociais decorrentes do pensamento de Marx, Nietzcshe e Freud, surge a vontade crescente de autonomização dos trabalhadores por apropriação dos meios de produção, a que se vão seguindo profundas mudanças técnicas e sociais, originando a subordinação a outras determinantes. Deixa de ser valorizado o tempo dispendido na produção, passando a ser enfatizado o resultado final da actividade produtiva. O valor é assim devido à “utilidade” que os potenciais clientes atribuem ao produto final. A subordinação é agora devida não à entidade patronal, mas à lógica do mercado.

Também a natureza do produto se alterou: a transformação da matéria-prima deu origem ao tratamento da informação, aumentando a ininteligibilidade do trabalho, agora menos concreto. Daí decorre a necessidade de profissionais mais qualificados, com uma maior capacidade de abstracção, que tratam unidades parcelares de dados, muitas vezes sem conhecimento dos processos, quer a montante, quer a juzante da sua parcelar actividade.

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